Presa num mundo sem profundidade, a visão de Manuela não alcançava para além do seu campo. Isolada do seu pensamento e ambição, a sua vida poderia resumir a um eterno movimento circular, constantemente voltando ao ponto de partida, quando parecia estar prestes a escalar as paredes que restringiam a sua vida.

Sem ambição que gerasse qualquer opção, a vida era simples e resumida, não fossem os acontecimentos do seu mundo serem bem maiores do que o espaço ao qual se restringia. Espaço e mundo no qual ninguém queria entrar.

Esta obra abre, para si, as portas deste mundo.

O desespero de Júlio empurra-o para Mafalda, uma jovem mas experiente terapeuta habituada a lidar com inquietos desenquadrados sociais. A relação entre eles flui com a natural química de um aparente jogo predestinado, mas as suas convicções são tão diferentes como as suas personalidades.

A afinidade e complementaridade entre ambos é por demais evidente, mas será que os seus caminhos se juntarão ou, pelo contrário, eles nunca se aproximaram?

Nestas páginas não só poderá encontrar a resposta, mas também toda a história entre ambos, que alternam entre si a narração de como tudo se passou.

O severo fado rotineiro de sua vida só em fugaz época seria interrompido, com o nascimento do seu primeiro amor. Após aquele trágico dia que correspondeu com um sim à temível lei imposta por um outro alguém, a sua vida seria de trabalho árduo, com tenazes chibatadas quando não correspondia com a lei marcial com que vivia. Independentemente da tarefa realizada, o resultado teria que ser inevitavelmente o mesmo, a plena satisfação com as regras impostas pelo seu amo. A sua única alegria era a plena consciência de que cada vez fazia mais, cada vez fazia melhor. No seu labor, cada vez mais, cada vez melhor.

Com o nascimento do seu primogénito, um ano após a união, os castigos diminuíram e aligeiraram, tornaram-se menos intensos e menos frequentes, talvez pelo fascínio de tal bela obra, talvez pela satisfação que saiu da junção de dois corpos.

Nos últimos sete anos de sua vida, após o decréscimo sucessivo e progressivo do seu castigo, retomou o constante maltrato, sem razão existente, apenas maltrato. A morte do primeiro seria o significativo marco, chocante e relevante, com um impacto semelhante a um meteorito. Talvez por culpa sem culpa da tragédia de seus filhos que teria que ser atribuída a alguém. Não teria, nem tem, porque tal não havia, culpa, apenas culpa do destino e de quem o sofreu. Apenas tornava a consciência mais leve. A de Manuela tornava-se mais pesada, contudo, tal que a matou. Ou isso ou a pancada. Ainda assim, Manuela preferia arcar com as culpas que sabia não ter, para não aceitar uma pior realidade, a humana incapacidade de ter total controlo sobre todos os acontecimentos.

Capítulo 1

O vento parece diferente no cimo da ponte. Quanto mais baixo o meu olhar, mais tentador é o rio e o calor do seu abraço. Questiono-me se nele me irei aconchegar ou se permaneço mais tempo acordado quando apenas o sono me der paz. Questiono-me sobre o caminho a tomar, se o que termina e me sossega, se o que continua e me tormenta. Adormeço no fim certo ou acordo para o incerto? Questiono a minha própria esperança se haverá algo mais que me sorria para além desta tempestade.

Curioso, hoje o céu está limpo, em Outono. Um bom sinal, apenas não sei para quê. O significado é misterioso, tudo tem significado para mim. No fundo não tem, sei bem, mas na minha vida tem, procuro inspiração constante, algo mais que decida por mim. Não gosto de decidir mas agir. É por isso que me encontro há longos minutos com as mãos enroscadas no metal que finaliza esta ponte, nas suas laterais, impedindo que, simplesmente, vá por ali. Seguro neste metal e fito o horizonte e a água que por baixo corre, as minhas duas opções nesta encruzilhada. Aqui estou eu, sem escolha, apenas fui sendo levado para aqui, até aqui.

Estou pronto, limpo, asseado, bem vestido. Tudo para um novo capítulo nesta história. Seja o último capítulo ou apenas mais um. A minha melhor camisa, umas calças, um pente no bolso, com uns sapatos pretos. Tudo pronto para a minha entrevista com o meu narrador. Tudo pronto pois não sei se viro à esquerda, ando e esqueço, se sigo em frente, caio e esqueço. Certo é que a minha vida, tal como era, terminou. Resta saber se eu também.

Sinto o calor do rio, cada vez mais sedutor, cada vez mais próximo, e a luz do meu lado esquerdo cada vez mais apagada, mais longe, o caminho mais longo. Assim a escolha parece fácil, mas gosto do difícil. O meu abraço será noutra altura, por agora andarei um pouco mais.

Recordo-me bem do que gerou este instinto. Recordo--me bem de quando entrei, por imposição, naquele consultório. Diziam que era um pouco depressivo e obsessivo, mas eu sempre achei que sou maluco. Lá fiz o frete de ir. Entrei, sentei-me num sofá muito estranho. Acho que era roxo e parecia prender-me. Sentia-me sem qualquer saída. Passado vinte minutos, entrou ela, bebia o seu café sem olhar para mim, lendo uns papéis que tinha na outra mão. Era alta, cabelo castanho, moderadamente bonita, com um peso correcto à vista. Muito banal, usava uma camisola de malha. Não me recordo da cor, ela mudava muito de cores, acho que comprou toda a roupa no mesmo sítio, na mesma altura, mudou apenas as cores. Ganga, nunca na parte de baixo, que conjugava com botas, nesta fase.

Perguntou-me nome, idade, e os comuns dados pessoais. Disse tudo e perguntou-me porque estava ali. Disse que o médico tinha aconselhado com dureza, após ter desatado a bater no último tipo que me tinha pedido um café cheio, depois de entregar um café normal. Perguntou-me porque o fiz, respondi que era frustrante tratarem pior um empregado de restaurante do que um advogado, pois ninguém pede para fazer uma maior argumentação depois desta estar feita. Sirvo um café cheio, se me pedem café cheio, se me pedem café, sirvo um comum café. Agora não tolero arrogâncias nem maus modos, sem razão para tal. Acho que vivemos numa época com demasiadas mordomias e clivagens sociais.

Ela disse que havia gente mal-educada mas que violência não resolve nada. Não comentei. Passou os quarenta minutos, tinha que sair, disse que contava comigo na próxima sessão, uma por semana, achava que conseguia tornar mais suportável a minha existência. Gostei da frontalidade, não se pôs com tretas.

Concordei e despedi-me.

Capítulo 2

Indivíduo peculiar. Assim mesmo, peculiar é a palavra certa. A forma como se expressa corporalmente enquanto fala denota uma certa nobreza. Nada sei sobre ele e parece pouco disposto a relevar o que quer que seja, apenas se preocupando na idealização que faz de actos e da própria vida, qual cavaleiro regido por valores uniformes há muito enterrados.

Ele é despreocupado visualmente, apesar da boa aparência. Cuidado fisicamente, mas descuidado e simples. Apenas as cores combinam, a sua roupa não obedece a qualquer padrão para além desse. Camisola de algodão simples e sem forma, verde esperança, calças castanhas de um qualquer tecido, por engomar, e uns sapatos sem atacadores que há muito precisam de substitutos. Sem meias, sem relógio, sem qualquer acessório, nada para além do prático, útil e socialmente imposto. O cabelo, a direito, cortado talvez por ele próprio, um pouco despenteado, mas uniforme, uma só forma que não é forma nenhuma. Será uma imagem dele mesmo? Uma forma apenas, sem significado? Talvez.

O carácter e o orgulho são nele bem vincados. Parece-me ter uma imagem de si própria bastante clara. Aparenta simplicidade e humildade, com uma elevada auto-consciência e confiança. Pouco revelou, mas todo ele transpira respeito.

O episódio reincidente de violência, no decorrer de suas funções, denota uma preocupação incomum com a sua honra e uma suposta lógica própria de justiça social. Justiça será a palavra certa? Ele parece estar ciente da justiça que leva a cabo, mas será justo? Será justo com os demais e com ele próprio? Não será demasiado austero e firme nas suas convicções? Será incapaz de se adaptar? Será que a sua história não terá um fim trágico? Será este indivíduo apenas mais um indivíduo? Será que me fará repensar, e a todos, caso tenham oportunidade de o conhecer? Será ele um justiceiro dos tempos modernos?

Ainda não sei responder nem tão pouco tentarei, preconceitos ou juízos precipitados são inadmissíveis. Apenas estou curiosa, como sempre quando me deparo com um novo sujeito de análise. E sim, ele é apenas mais um sujeito.

Capítulo 3

Este cabelo ontem estava na minha cabeça, não na minha mão. Devia relaxar, durmo sempre mal e de manhã ao espelho é que me consciencializo. Não vou relaxar, sei que minto a mim próprio, mas é confortável, sinto-me melhor. Já noto bem alguns cabelos brancos, para além dos que todos os dias vão ficando pelas mãos, de manhã. Ao somar três décadas, penso nos cabelos que me caem. Não sei se eram apenas trinta, talvez fossem mais. Mas penso na idade. Verdade, trinta é pouco, mas que trinta são estes, e porque serão apenas trinta? Em anos caninos seria imortal, mas em anos humanos não terei eu vivido mais que trinta? Não serão os meus cabelos uma prova da minha idade, como os dentes num cavalo?

Faço esta dança todas as manhãs, não sei para quê, pareço ridículo a tentar justificar-me a mim mesmo de que sempre fiz o mais acertado, satisfeito por uma vida intensa. Pouco importa, sei bem, nunca optamos pelo que menos nos satisfaça. Pouco importa, sei bem, todos nos arrependemos mais tarde de algo, como se tudo dependesse de nós.

Sem ninguém omnisciente, em quem podemos confiar, senão apenas naquilo que conhecemos? Optamos pelo mais acertado, juntando-nos a este mar em que todos os peixes fazem o mesmo, apesar de surgir sempre, fatídico e cruel, o imprevisto. Assim pode a vida ter mais piada. Tudo sabendo, para que viveríamos? Não é essa a tal piada do chamado destino? Não o sabemos, não o conhecemos, ora então, vamos escrevê-lo.

Bato a porta atrás de mim, deixando tudo assim como surgiu de manhã. Nunca me lembro de desarrumar tanto, mas também tenho uma péssima memória para o que não me diz respeito. A minha casa serve-se de mim, não eu dela. Caso contrário, porque pago todos os meses uma renda àquele desgraçado? Ter um abrigo é necessidade primária a todos os animais, e eu não sou diferente, mas porque raio mais de metade do que ganho vai para um abrigo no qual nem me sinto seguro nem confortável? Já para não falar que tenho que me condicionar todos os minutos em que lá estou, por regras impostas que supostamente são para o bem geral, para um melhor viver e bem-estar. Diz lá em baixo isso, mas gostava de saber quem o escreveu e gostava de perguntar se actualizou aquilo recentemente. Creio sinceramente que não, a clivagem de idades aqui é enorme e creio que todos podiam ser um pouco mais tolerantes. A minha caixa de correio está a abarrotar, já não a abro há dias, nem faço questão de a abrir. Nunca recebo boas notícias.

Hoje está bom tempo, vou andar mais um pouco e vou tomar o café mais próximo do mar. Vou à esplanada onde tive o meu último desgosto amoroso e vou comer o bolo mais guloso que lá estiver, acompanhado de um café e de um bom conhaque. Gosto de ter boas memórias dos sítios e isto vai certamente colorir este lugar na minha cabeça. O sítio, coitado, não tem culpa nenhuma, eu é que fui um idiota. Acontece. Vou entrar e o empregado lembra-se de mim. Sorri com piedade, ao que digo que já me vi mais bonito, mas de facto, não estou mal de todo. Pergunto-lhe se a mesa ao canto está ocupada, porque está suja. Ele diz que não e vai limpá-la, embaraçado. Pede desculpa, eu não ligo.

Sento-me e vejo-a a alguns metros, noutra mesa. Ela não entrou mas está ali. Bebe um café, pede mais uma torrada. Lembro-me que gostava bastante. Sorri para mim e pergunta-me se está tudo bem. Não respondo a fantasmas, e sim, ela era um fantasma, nunca uma ilusão. Olho para ela fixamente, imaginando-a e pensando que realmente foi uma pena, mas éramos demasiado infantis para algo adulto. Eu ainda sou, ela também ainda é, quase de certeza. Ela fala enquanto vê os programas da manhã, eu oiço mas claro, o empregado não. Ele vem me servir, e pergunta se quero já o conhaque ou se traz depois do café. Eu digo que tanto faz, porque ia beber e comer mais. Ela continua lá, a ler. O empregado intrigado, volta para o seu trabalho mas questiona--se para onde estou a olhar tão fixamente. Curioso este fenómeno de associar gente a lugares. Não faz sentido algum, não há nada mais desumano que um lugar, mas no entanto, associamos. Penso que será exactamente pela humanidade que damos aos lugares, com o nosso calor, passamos a adjectivá-los. É a única explicação lógica, para mim.

Os acontecimentos marcantes ficam sempre em brasa, nos locais, nunca os esqueço, algo que aprecio deliciosamente, mas que me dá muitos cabelos brancos, bem mais dos que os que já tenho colados na cabeça. Sinto o peso da idade e da vida na cabeça. Nos meus olhos, apenas nada mais. Nas minhas mãos, seguro o café para as aquecer e vou dando leves tragos, para nunca mais acabar, para que aquele momento em que como e bebo faça durar séculos a minha ténue existência, que me faz sentir apenas mais um miserável. Às vezes apetece-me morrer amanhã, por ser um grande alívio, mas outras vezes penso que tenho muito que compor aqui, muito para melhorar, muito tempo forçoso para marcar a diferença. Prefiro assim prolongar todos os momentos, calmamente, para ver se vivo mais no mesmo prazo.

Deleitando-me com este pequeno-almoço de longas horas, abandono pagando e acenando ao empregado como quem diz adeus. Não tenciono voltar ali novamente. Ela diz-me adeus ao longe. Nisto esqueci-me como vim para aqui. Vou perder algum tempo a encontrar o caminho de volta. Vá lá que a consulta é bem tarde.

Capítulo 4

Vou agora almoçar, ao restaurante de sempre. Sempre simpática a companhia destes empregados. Gostei desta manhã, não houve contratempos. Acordei com tudo quase pronto e tomei um belo pequeno-almoço, com a cozinha recheada das compras de ontem. Não apanhei trânsito, e no parque tinha muito por onde estacionar. Nada me fez demorar. Só espero que o dia assim se mantenha.

Noto que tenho uma manga mal engomada. Detesto. Não gosto de me ver nem que me vejam. Prefiro tudo como deve ser. Tenho de reclamar na lavandaria, mas acho que só ia piorar tudo, sempre correu tudo bem lá. Não preciso disso, o dia está a correr bem.

Vou para a mesa do canto, como costumo. Hoje peço a carne, ontem pedi peixe. Carne branca, menos gordura. Prefiro assim. Analiso os processos dos meus pacientes, enquanto aguardo. Paro no Júlio. É a segunda consulta, e na primeira não conquistei nada dele. Penso que terei de falar mais, o que detesto, acabo oferecer algo meu e prefiro guardar. Terei de incentivar a que se abra, para fazer um bom trabalho. É esse o meu propósito. Sei que se não tivesse esse intuito, não sentiria tanto prazer no meu emprego. Felizmente, o meu posto é uma extensão de mim própria, tenho muita sorte.

O almoço chega, e brilho perante este peito de frango suculento e muito bem guarnecido. Sinto-me satisfeita, quase feliz, porque isso só na sobremesa. Vou-me concentrar na comida agora. Sinto-me bem escoltada por ela. Saboreio e olho um frenesim momentâneo, uma família de cinco, mesas de quatro. Complica e eu baixo os olhos. A faca corta bem, vou saboreando. Paro com o Júlio no pensamento. Não me lembro a última vez que alguém me deixou tão inquieta. Falou muito mas revelou pouco. Mostra pouca emoção naquilo que diz e que pensa, daí a minha grande surpresa. Sem notar, vejo já o fim desta refeição. Olho para o relógio e continuo a deliciar-me, enquanto cuido do Júlio. A sobremesa não tarda.

Olho para o meu carro que pede para que o limpe. Prometo um sim. Um pequeno desvio apenas, antes de uma casa vazia que por mim aguarda. Peço a minha sobremesa, um gelado. Enquanto isso, observo uma criança atrapalhada a tragar um bife maior que a sua boca. Viro os olhos diligentes para a televisão que mostra mais crianças, numa escola algures. Chegou o gelado. Fico feliz, enquanto calculo os minutos para voltar ao trabalho. O trabalho lembra--me o Júlio. Vou pensar no gelado, antes.

Capítulo 5

Bato à porta para entrar, cheguei atrasado uns minutos. A sua silhueta já está lá, sentada, enquanto pensa nos apontamentos que está a escrevinhar. Suponho que esteja lá, num sofá, a pensar no seu trabalho. É dedicada a esse ponto, parece-me. Extremamente organizada e meticulosa, de acordo com a minha primeira impressão, e costumo enganar-me muito pouco com as primeiras impressões. Sigo sobretudo o meu instinto e a experiência acumulada ao longo de dias morosos e cansativos, característicos de toda a minha história.

Entro e reparo que tudo aqui é amorfo e inexpressivo, cinzento, apenas os quadros ganham vida, saltando para os meus olhos, freneticamente. A custo viro o olhar e sei que para eles não poderei retornar, pois provocam em mim um exagerado desconcerto. Fico cativo. Sinto-me tentado a isolar-me no local que me oferecem para sentar, pois nenhuma porta há para mim nesta sala, até que me digam que terminou por hoje. Presencio um estranho prazer por algo tão exacto, raro na minha existência, algo tão seguro, apesar do desconforto de toda esta atmosfera cinzenta, inexpressiva e inumana. Uma dimensão aparte, pouca luz natural, apenas uma imagem de um qualquer filme antigo um tanto ou nada assustador. A única vida ali resumia-se a mim e a ela, sendo que eu não sei se vivo, e quanto a ela também duvido.

Estou amorfo, quebrado, mas resisto. Mantenho-me hirto, com uma certa firmeza característica uma falsa segurança, que vulgarmente se vê expresso em quem sabe que, de um dia para o outro, tudo perde. É a total consciência da efemeridade e o total desprendimento do material que me permite este foco em mim, nas minhas vontades, nos meus princípios. Aqui me encontro sentado por opção, porque a isso me quis sujeitar, porque, por princípio, achei ser o mais acertado.

Começa por me perguntar como estou, desde a última vez que lá estive, digo que bem tendo em conta as circunstâncias, ela pergunta-me quais as circunstâncias, eu respondi que nunca se fica muito bem quando, dum momento para o outro, nos retiram a nossa autonomia e nos confinam a uma dimensão à parte. Ela diz que todos os actos têm consequências que devemos ponderar nos nossos actos, antes de os praticarmos. Respondo-lhe que não concordo, não é possível ponderar em todas as consequências, como também é errado fazê-lo, em qualquer ocasião. Acrescentei que devemos sempre fazer o mais acertado, agir pelos nossos princípios e ideais, esses sim os mais correctos. Ela responde-me que não podemos ver tudo em nossa função se vivemos em sociedade, devemos sempre considerar as nossas acções pelas consequências em nós e nos demais. Prossegue perguntando se não acho essa a única maneira de, numa sociedade a fervilhar de conflitos latentes, reinar alguma simpatia, algum sossego, alguma calma, alguma alegria, alguma paz.

Enervei-me. Não só com a pergunta, mas com toda a sua postura e atitude apaziguadora. Grito-lhe que a violência latente só deriva dum constante desrespeito e incompreensão dos demais, pela perversão dos meios pelos gananciosos fins, pelo egoísmo e materialismo geral que nos tolda a visão da nossa própria alma. Atiro-lhe que não somos mais que animais que lutam entre si e que lutarão até ao fim dos seus dias, constantemente, alimentando-se com o seu próprio veneno.

Firmemente me diz para falar baixo, respirar fundo e me acalmar. Relaxo. Firmemente me diz, que está ali para me ouvir e me ajudar. Confio. Ela afirma que preciso de confiar nela. Sorrio. Ela retribui, confirmando que ali não há conflitos. Prossegue, diz estarmos a andar no mesmo sentido. Aceno-lhe com a cabeça, compreendendo.

Ela pergunta se me sinto inseguro fora de casa. Digo-lhe que a minha casa de nada me protege, e retribuo perguntando porque me havia de sentir seguro em casa. Ela pergunta como me sinto em casa. Respondo-lhe que me sinto exactamente igual em qualquer sítio com ausência de pessoas, perturbado. Ela interroga qual a razão e digo que sinto sempre uma total ausência de segurança, pois não sei de onde virá a próxima ameaça. Ela diz que o mundo não está em constante conflito nem eu em constante perigo. Eu refiro que sim, que somos frequentemente bombardeados e agredidos de diversas formas, uma constante pressão e massacre comunicativo, das quais me protejo nunca vendo notícias. Ela questiona se não gosto de saber como vai o mundo. Afirmo que mesmo que não queira, sei. Continuo declarando que talvez seja essa a maior prova da globalização, sabermos de tudo porque todos sabem de tudo, o tudo que quase sempre é um nada, um vazio, uma informação irrelevante exacerbada. Nunca sabemos aquilo que devíamos saber, asseguro. Continuo reiterando que éramos mais felizes se menos soubéssemos, acudíamos mais quem conhecemos e menos os demais que nem sequer entendemos.

Quanto à vida, concluímos não existir sentido mais profundo do que a própria vida em si. Tal como a morte. Há empatia entre nós. Ela diz-me que espera estar errada e haver algo mais para além do que a ciência explica. Eu pronuncio que espero que não haja, não desejo estar assim tão errado. Ela pergunta-me o que penso da morte, respondo que considero ser a única coisa justa nesta sociedade gerida por minorias que definem as maiorias. Prossigo que a própria morte nos iguala a todos, pois durante a vida são constantes as nossas desigualdades e desvantagens. Perante a morte, todos somos iguais, sujeitos às mesmas circunstâncias do seu feliz suspiro. Ela acena, pactuando e encantando, enquanto exprime que é a única coisa boa da morte, para além da fama.

Admiro a sua sincera frieza. Deliciosamente aprecio, agora, as amargas paredes que por trás a rodeiam e a aproximam de mim. O tapete prisioneiro, ao mesmo tempo, recorda-me a eterna distância vincada nas extremidades pelos nossos sofás. Ela mostra interesse em perceber como prevejo o meu futuro, digo que me vejo sem futuro, tal como o mundo. Ela, intrigada, pede-me para explicar. Eu explico essa minha visão pela crescente deturpação da felicidade, que hoje se mascara na compra de algo em qual nos queremos reconhecer, quando nem sabemos bem quem somos. Procuramos nos desenhar quando não sabemos quem somos nem para onde vamos. Creio que esta massa terá um futuro da sua cor, cinzento, gradualmente escurecendo, enquanto não encontrar a sua própria cor, enquanto não tomar noção dos valores que perdeu e dos crimes dos quais todos nós somos culpados. Ela questiona se por isso me dou mal com todas as pessoas em geral. Expresso que sim, que todos eles me revoltam pois revejo neles o crime que todos cometem.

Por hoje, o meu tempo acabou, interpela. Estou exausto. O tempo foi o mesmo, mas sem dúvida que a sessão foi bem mais longa que a anterior. Cansa-me bastante ter que contar estas coisas. Não estou acostumado.

Capítulo 6

A noite cai, mas o tempo continua quente. Quente como a tarde, quente como a intensidade desta tarde, em que te quis para ouvir mais e mais e mais. Tenho muito para fazer e muito para pensar, mas tenho que optar, ou faço ou penso. Vou agora entrar no meu carro e sei que o vou sentir frio. Frio como a solidão. Vou ligar o rádio e o ar condicionado, preciso de me sentir acompanhada. Assim o faço e assim viajo.

A viagem sempre foi breve. Vinte minutos. Sempre, vinte minutos, velocidade constante. Nunca vivi em excessos. Nem mesmo quando necessito. Acho sempre que o excesso apenas leva a mais excesso. Contudo, não consigo deixar de imaginar como seria se, por vezes, me deixasse levar um pouco. Como me sentiria? Porque não o faço? O Júlio parece não saber viver doutra forma. Segue a sua rígida filosofia, qual cavaleiro. De facto, não posso deixar de lhe dar razão, creio que perdemos muito do que somos, enquanto humanidade. No entanto, creio também na nossa capacidade de mudar, de evoluir. Contudo, creio que agora tenho que fazer e não pensar. Vou sair do carro e abrir a porta, para entrar em casa. Começo pela cozinha e pelo meu jantar. Comida para um, como costume. O vinho preenche a outra cadeira como sempre. Careço de outra companhia.

Enquanto o jantar se vai cozinhando, vou para a sala ver TV. No telejornal nada de novo. Crise disto, crise daquilo. De facto ele tem razão, é uma constante agressão, eu própria me sinto incomodada e não sei como não reparei antes. Vou desligar. Não, vou mudar de canal. Um filme antigo, um conto de fadas, a preto e branco.

O jantar docemente me chama pelo seu aroma, e eu sigo-o fielmente. Estou bem agora, a garrafa já falou comigo claro. O jantar está óptimo também. Boas companhias. Mas rapidamente acabam. O filme entristece-me, chora-me e eu conjuro, vou buscar chocolates. Bem melhor. Navego pelo filme ao imaginar como seria estar ali, a preto e branco, onde tudo seria tão simples, a preto e branco, nunca neste mundo de tons cinzentos que fervilha diariamente com a velocidade com a qual passamos uns pelos outros. Vivemos intensamente mas superficialmente, concordo com ele. Ele está certo em muito que diz e para ele, estar neste filme a preto e branco, representaria sem dúvida felicidade, ele que se entristece num planeta tão cinzento.

Vou buscar vinho. Vinho do Porto agora. Mas antes, vou-me despir para ficar mais confortável. Estou leve e prestes a voar. O cérebro começa a voar enquanto o fim do filme se aproxima. Revejo a tarde de hoje, com ele, constantemente almejando fazer a diferença quando ele mesmo é apenas uma formiga no cosmos, procurando ele mesmo mudar o universo, quando o universo vive por si só.

Ele parece-me um insatisfeito. Sempre gostei disso. A ambição pode ser uma boa aliada, se na medida correcta. Ele precisa de ajuda. Sempre gostei disso. Ele é um paciente.

Sempre gostei disso. A atracção que por eles mantenho, só pode ser explicada pelo interesse e pela ajuda. Eles interessam-me, eles ajudam-me a sentir útil. Eu ajudo-os, gosto de os ajudar, eles ajudam-me e acho que gostam de me ajudar. Normalmente não me ajudam muito tempo, mas ajudam--me. Outras perspectivas, outros mundos. Tudo isso me ajuda a compreender esta mesma realidade em que todos vivemos. Eles ajudam-me, pois as horas não parecem tão longas nem os dias tão mortos. Eles ajudam-me, pois esqueço a minha solidão, a minha tristeza. Eles ajudam-me, pois o buraco na minha vida parece menor. Eles ajudam-me, pois esqueço-me dos meus sonhos já cumpridos, demasiado pequenos para uma história e para quem quer de facto viver. Eles ajudam--me, pois fazem com que viva.

Com um sorriso no vinho e com ele no espelho vou dormir.

O Tiago não escreve com certezas. Não é um fingido. Questiona muito porque tem medos e curiosidade e espe­ranças a correr da cabeça ao coração sem pausa relevante.

O Tiago escreve com muita poesia a ficção, porque deixa que as palavras tomem conta da página, dá-nos espaço para tudo. Não é possessivo.

O Tiago escreve porque precisa. Porque não sabe como não. Já era assim quando junto à estação-primeiro-ano-fa­culdade me dizia “acho que ainda vou escrever”. Eu acre­ditava, mais por ser crédulo que por ter provas, mais por gostar do Tiago do que por gosto aos jogos de adivinhar talento. Hoje sei bem e sorrio feliz porque o Tiago vai da es­crita para a estória, da vontade para a experiência e oferece ao leitor uma tarde de boa leitura. À noite é perigoso este Não Fomos Nós Dois. Perigo de mistura entre os sonhos que sonhamos e os sonhos que nem sabemos que sonhamos. Perigo de acordar e querer reler e deixar despertador e não ir aos lugares que ficam fora de um bom livro.

Quem parou neste leitor antes de ler, pode pensar que falamos de um livro luz, de muitas promessas, de orques­tração. Não. Falamos de um livro tenso até à medula, de um livro que caminha a passo apressado e vai olhando as pegadas do social, do lugar de onde se veio, mas não pára. Um livro de coça, que esfrega e que magoa. Um livro que não é consolação. Não se queira uma vista larga, de pico, de arranha-céu. Trata-se de um buraco no chão, trata-se de um mergulho, é humano.

Que, por favor, não se julgue o que aí vem pelo que aqui fica. Não é culpa do Tiago que este admirador e amigo – não por esta ordem – não saiba dizer coisa com coisa. Não é culpa do Tiago que tenha ficado deste fio a pavio e outra vez, mais do que uma impressão forte. O que aqui tenta, também não tem culpa da amizade do Tiago, que não me­rece.

Este é o segundo mas parece ser o quinto livro. De nega­ção daquele que foi a dançar para Paris.

Contem onde possam e garantam que se repete: o Tiago fez outro livro e não pode deixar de ser lido. Chamem os tradutores que isto não é só nosso.

Roberto Leão

A sua vida podia se resumir em pequenos factos, aliás para os demais a sua vida era isso mesmo, pequenos factos. A pobre Manuela, aos catorze, teve o seu primeiro e amado, e mais dois vieram, por cada sete e nove anos depois, sendo o último tão brutal, que representou total infertilidade conjugal.

Manuela era séria e correcta, não insultava ninguém, não falava de ninguém, não devia a ninguém. Dava a outra face, quando necessário. Estava noutro mundo, para alguns. Inocente e ingénua, nada a afectava, não sorria, não chorava. Um poço de força, rígida como um cubo de gelo, sólida como uma torre.

Casa, campo, casa. A sua vida. Pela manhã colhia, plantava, regava. No final, cozinhava e arrumava. Pela tardinha, limpava, cosia, remendava. E já ao anoitecer, quando o céu assumia um semblante de negrura, acinzentado, com o sol começando a descansar, parava, cozinhava, jantava, dormia. Era de sol a sol, como uma formiguinha. No seu mundo cuidava, no seu pequeno mundo de pouco menos de duzentos metros quadrados, no seu belo mundo, com orgulho trabalhava e cuidava, cada vez mais, cada vez melhor, tal como seu pai dissera, cada vez mais cada, vez melhor.

""Júlio e Mafalda, dois seres com personalidades tão diferentes que só é possível o mútuo conhecimento um do outro através da circunstância que os une. Mafalda, jovem terapeuta, vive no sonho idílico de encontrar um homem rico que lhe dê uma vida abastada e despreocupada. Júlio, um jovem sonhador com uma filosofia de vida muito própria que questiona o que o rodeia. Ambos se conhecem quando, após um episódio reincidente de violência de Júlio no decorrer das suas funções profissionais, o faz começar a frequentar o consultório de Mafalda. Entre ambos nasce uma ligação que vai além da relação terapeuta-doente. Entre ambos, nasce uma espécie de conhecimento íntimo, uma atracção que os levará a questionar se o destino não os terá determinado um ao outro. Este livro do jovem Tiago Gonçalves, revela-se uma espécie de conto que nos transporta ao âmago de dois seres humanos cuja diferença é notória logo desde o início mas cuja complementaridade é palpável. O livro é muito curto, penso inclusive que Tiago Gonçalves tinha muito mais matéria para explorar, pois ficamos com um sentimento de “saber a pouco” quando a história termina e da forma como termina. Com uma escrita simples, o autor vai também divagando considerações sobre várias questões sociais e isso, confesso, foi algo que me agradou imenso e que deu à obra e aos personagens mais realismo. Parece-me estarmos diante de um autor que pode construir uma obra literária, saiba ele começar a desenvolver a sua aptidão, que é inegável que tem, em obras mais longas e mais desenvolvidas, tanto ao nível do argumento, como ao nível da caracterização e desenvolvimento das personagens.""
- Miguel Chaiça, N Livros

""O desespero de Júlio empurra-o para Mafalda, uma jovem mas experiente terapeuta habituada a lidar com inquietos desenquadrados sociais. A relação entre eles flui com a natural química de um aparente jogo predestinado, mas as suas convicções são tão diferentes como as suas personalidades." (sinopse) Este não foi o primeiro livro do autor Tiago Gonçalces que li. Já o tinha feito com "De uma só sorte". Em "Não fomos nós dois", o autor remete o seu leitor para um universo centrado em duas personagens, do meu ponto de vista, cativantes. Júlio: um homem desesperado que tem uma visão muito particular e negativa da vida. Mafalda: a psicóloga que irá ajudar Júlio a alcançar respostas para as suas questões e inquietações. É um livro que levanta reflexões interessantes e perspicazes e que, simultaneamente, nos leva para o mundo interior destas duas personagens. Sendo cada capítulo dedicado alternadamente a Júlio e a Mafalda a leitura torna-se cativante pois permite-nos compreender os mundos interiores de cada uma das personagens, em momentos simultâneos da história. Por outras palavras, conhecemos Júlio num capítulo na relação que estabelece com Mafalda no espaço terapêutico e, logo de seguida, no capítulo seguinte, acompanhamos as reflexões de Mafalda sobre esse mesmo momento. Ao ler este livro senti que houve uma evolução na escrita do autor Tiago Gonçalves e, embora seja um livro com poucas páginas, é um livro cheio de conteúdo que deixa o leitor com questões e reflexões.""
- Diana Barbosa, Refúgio dos Livros

""Pelo seu tamanho, classificaria esta obra como um conto, quando muito uma pequena novela. São 14 capítulos, mas a maioria com uma ou duas páginas. É apresentado em forma de monólogo, ou, se preferirmos, de um diálogo diferido. Nos capítulos ímpares, fala ele; nos pares, fala ela. Ambos refletem sobre os seus encontros semanais, como paciente e terapeuta. O desenlace começa a pressentir-se no início do livro e confirma-se no final, embora o leitor seja levado a torcer para que tal não aconteça. É um livro com uma trama narrativa bem construída e uma história breve e simples, muito ao estilo da sociedade dos nossos dias. Hoje todos somos uns inadaptados, todos nos julgamos especiais, mas, provavelmente, não passamos de uns falhados, porque não somos capazes de agarrar e conservar as oportunidades de ser feliz que surgem no nosso caminho, vítimas dos nossos preconceitos e do nosso egoísmo. Penso que é esta a mensagem que o autor nos quis deixar. Aponto como deficiência as diversas falhas de revisão, mas essa é uma pecha muito comum nos dias de hoje, mesmo nas editoras mais conceituadas. Para além disso, é uma leitura agradável para um serão.""
- Sebastião Barata, Segredo dos Livros

""Incapaz de se enquadrar na sociedade em que se encontra, Júlio procura uma terapeuta. Mas Mafalda, com uma visão do mundo tão diferente da sua, toca-o de uma forma bastante mais profunda que a da simples relação profissional. E o sentimento parece ser recíproco. Acompanhando o ponto de vista de ambos os protagonistas, Não Fomos Nós Dois é a história das suas impressões, emoções e convicções... e como os seus caminhos se unem e separam de forma tão simples quanto marcante. Um dos primeiros elementos a surpreender nesta leitura é a escrita. Num estilo muito próprio e peculiar em que, mais que uma linha narrativa (que existe, ainda assim), pensamentos e circunstâncias parecem surgir ao ritmo do impacto que exercem sobre os seus protagonistas. Mais que o contacto entre paciente e terapeuta, ou até mais que as relações que estes estabelecem para além do contacto entre ambos, cada acontecimento serve de base para uma avaliação dos seus valores e das suas reflexões. E é aqui que o contraste se define, já que, com tão diferentes posturas perante a vida, Júlio e Mafalda pertencem, apesar da relativa atracção, a mundos diferentes. Trata-se de uma história relativamente breve, onde os acontecimentos passam para segundo plano ante convicções e emoções. Ainda assim, esta quase ambiguidade dos acontecimentos resulta inesperadamente bem. Na brevidade do texto, surgem contrastes e pensamentos que poderiam pertencer a qualquer um e isso basta para construir uma empatia que se torna mais forte pelo final inesperado. É certo que seria interessante ver mais sobre este duo de protagonistas, mas o essencial está lá. Breve e com muito de pessoal, esta é uma história que, de leitura rápida e com um estilo de escrita muito próprio, fica na memória principalmente pela força das reflexões. Cativante e agradável, gostei.""
- Carla Ribeiro, poetisa

"“Não Fomos Nós Dois” de Tiago Gonçalves, relata-nos a história de dois personagens – Júlio e Mafalda. Ele gosta de viver no “fio da navalha” ela deseja e procura segurança. Ele disposto a arriscar, a acalmar para ficar com quem ama, ela prefere jogar pelo seguro, prefere não arriscar! Mafalda é terapeuta e Júlio seu paciente, ambos sentem-se atraídos um pelo outro, não pelo que têm em comum, mas pela diferença, pois juntos completam-se. Porém apesar desta situação atrair Mafalda (porque no fundo, ele é o que ela gostaria de ser) também a assusta. Assusta-a tanto ao ponto de repelir esse amor em prol de algo estável ou do que pensa ser estável. Júlio, embora disposto a mudar, para lutar pelo seu objectivo (felicidade) é-lhe retirada a possibilidade desta oportunidade. Na minha opinião, Mafalda acaba por espelhar as opções da maior parte da sociedade em que vivemos, uma vez que ao abdicar da sua possível felicidade, por medo de arriscar, opta pelo que lhe é mais seguro, mas certamente menos interessante, Mafalda perde aquele que poderia ter sido o seu grande amor, o seu grande companheiro… Daí a razão do título do livro “Não Fomos Nós Dois”. Gostei, parabéns ao autor pela sua escrita!""
- Paula Teixeira, Viajar pela Leitura

""Começando com um prefácio em prosa-poética, bastante elogioso e dedicado ao autor por Roberto Leão, Tiago Gonçalves apresenta-nos uma obra diferente da primeira, De Uma Só Sorte. Aqui encontramos quatorze capítulos, intercalados com diferentes POV, com diferentes pontos de vistas, opiniões e experiências. No início há uma troca de vivências e filosofias, onde as personagens se vão conhecendo e aproximando... ou assim pensamos nós. Foi com o final que o autor mais me surpreendeu, visto que nos dá pistas, ou até uma história, para um determinado final, mas nos dois últimos capitulos Tiago Gonçalves troca-nos as voltas. Tal como em Uma Só Sorte, a narrativa tem um toque quase poético, que estranhamos no inicio, mas que acaba por se entranhar. Confesso que as primeiras frases me pareceram um pouco forçadas, com frases demasiado curtas e pontuação muito rápida, mas posteriormente tudo se torna mais fluido, ou talvez somos nós que nos envolvemos cada vez mais na história de Júlio e Mafalda.""
- Inês Santos

"Últimamente tenho procurado contrariar uma ideia préconcebida de que não gostava de ler autores portugueses porque me maçavam e tenho tido gratas surpresas porque vão de encontro às minhas expectativas, interesses e gostos. Este livro não desiludiu e nem me maçou. Pequeno em tamanho mas não em conteúdo. Claro que poderia ser mais desenvolvido porque me pareceu um pequeno conto sobre duas personagens que se encontram num contexto profissional, uma vez que Mafalda é a terapeuta de Júlio. Li a reflexão introspectiva de ambos alternadamente sobre si mesmos, o outro e a sociedade em que se inserem, com diferentes perspectivas e objectivos. Súbitamente a empatia e atracção mútua mas o desfecho é diferente do que desejei mas coerente com toda a narrativa. "A minha alma terá de sorrir devagar." É disso que se trata. Tocante e sincero sobre emoções e sentimentos numa escrita bela e profunda. "Não se lembrava de datas, não se lembrava de momentos, não se lembrava de pessoas, não se lembrava dela, não se lembrava de viver. Reitera que vivia por viver, amava por amar, nada nele envolvia paixão." Pag. 46 "Paixão e romantismo não são, para mim, mais que euforia momentânea e breves segundos de felicidade fugaz e inconsequente." Pag. 66"
- Helena, Segredos dos Livros e Ler Prazer Adquirido

""Não Fomos Nós Dois" é a estória de Júlio e Mafalda, paciente e terapeuta, duas pessoas distintas com algo em comum, a solidão. É esta mesma solidão que leva Júlio a procurar os serviços de Mafalda. Frequentando o consultório da terapeuta, a atracção mútua vem ao de cima, inevitável e pronta a ser discutida. No mundo imperfeito de Júlio, será Mafalda a perfeição? No mundo comedido de Mafalda, será Júlio o turbilhão que lhe dará vida e energia? Tiago Gonçalves retrata-nos duas personagens com as quais facilmente nos identificamos, seja pelo seu desespero, pela sua busca da felicidade, pela sua ambição ou pela falta dela. A acção roda em torno de apenas Júlio ou Mafalda, sendo narrada pelos dois, alternando em cada capítulo. Tanto Júlio como Mafalda são personagens bem estruturadas e vincadas pela formação sociológica do autor. A leitura é rápida e agradável, de fácil entendimento e que, no seu final, nos deixa a reflectir. A reflectir sobre quem somos e quem queremos ser, de onde viemos e para onde vamos. Uma estória curta mas envolvente, recomendada a todos os que alguma vez na vida se sentiram sós."
- Joana Nunes, Segredos dos Livros e Leitura Não Ocupa Espaço

"De vez em quando gosto de experimentar um autor desconhecido e saborear a sua escrita na língua mãe de Camões. E por vezes tenho sorte. Apanho verdadeiras preciosidades, senão pela história, então pela forma como as palavras se encaixam umas nas outras. Julgo que este é um desses casos. A história, apesar de um pouco banal, está bem construída, e corre com fluidez perante os nossos olhos. Só tenho um pequeno reparo a fazer, na minha opinião a mesma teria ficado mais rica caso o autor tivesse optado por um estilo de escrita diferente para cada uma das personagens. Mas de resto gostei imenso da sua maneira de escrever. Quer-me parecer que daqui a mais algum tempo teremos boas novidades sobre este autor. "
- Fernanda Carvalho, Segredos dos Livros e As Leituras da Fernanda

"O desespero de Júlio empurra-o para Mafalda, uma jovem mas experiente terapeuta habituada a lidar com inquietos desenquadrados sociais. A relação entre eles flui com a natural química de um aparente jogo predestinado, mas as suas convicções são tão diferentes como as suas personalidades. A afinidade e complementaridade entre ambos é por demais evidente, mas será que os seus caminhos se juntarão ou, pelo contrário, eles nunca se aproximaram? Não fomos nós dois é uma pequena novela que narra sobre duas pessoas com filosofias de vida totalmente diferentes. Enquanto um vive sobre as suas próprias regras, não se enquadrando bem na sociedade, o outro vive sobre escolhas que lhe oferecem segurança. O livro é constituído por catorze capítulos, em que cada capitulo mostra a perspectiva de cada personagem, alternando-se entre si. Muitas das vezes retratam as sessões de terapia - que servem como válvula de escape emocional a Júlio. Após estes momentos, narrados da perspectiva do protagonista masculino, deparamo-nos com passagens introspectivas que revelam as opiniões de Mafalda. A narrativa é interessante, porque não apenas lida com o mundo interior das duas personagens, mas sim questões sociais que provocam alguma reflexão por parte do leitor. Tiago Gonçalves demonstra uma habilidade de escrita sublime, tendo simplicidade, qualidade e profundidade, adaptando também um estilo próprio. No entanto, ao finalizar a leitura de apenas 75 páginas que constituem a obra, fiquei com a sensação de querer mais, apesar da narrativa estar "completa". Tendo em conta a qualidade do autor, Tiago Gonçalves poder-nos-ia ter entregado uma novela um pouco mais extensa dando ao leitor um maior grau de satisfação. Porém, todos os leitores sentirão-se deliciados com esta obra no seu estado actual. EDITORCOMMENT Recomendo bastante, especialmente a quem não acredita em autores nacionais, provando assim que em Portugal também existe qualidade. POSITIVO A qualidade de escrita é sublime, sendo o ponto mais importante do livro. As perspectivas distintas das duas personagens. O final do livro é bastante realista, tendo muita gente experienciado o mesmo. NEGATIVO Apesar da narrativa estar completa, o autor poderia ter aprofundado mais"
- David Andrade, Análises Literárias

"Tive oportunidade de ler este livro graças à generosidade do autor Tiago Gonçalves, a quem desde já agradeço pela oferta. "De uma só sorte" é o 1º livro do jovem autor Tiago Gonçalves que nasceu em 1986 na bela cidade do Porto e cujo gosto pela Literatura desde cedo se manifestou e foi crescendo progressivamente à medida que os anos avançavam. "Licenciando-se em Sociologia na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, o seu sentido crítico e analítico é sinónimo de uma constante evolução ao longo de toda a sua vida, até ao ponto de chegada. A instrução académica seria o complemento para a sua própria aprendizagem, curiosidade e constante vontade de conhecer, aprender e pensar." E é com este conhecimento de fundo sobre o autor que parti para a leitura do livro "De uma só sorte": um livro com poucas páginas que me acompanhou numa tarde de Verão e me levou a conhecer a personagem Manuela: uma mulher que não alcança além do seu campo e que vive uma vida pacata e sem ambição. Este livro é um livro sobre uma mulher, a sua vida, o ritmo das suas acções. Poderia resumir-se a um eterno movimento circular, no sentido em que a vida de Manuela tem um ritmo e um correr de acções diárias que começam sempre no mesmo ponto e terminam regressando ao ponto de partida. É um livro simples, sobre uma mulher simples e a sua vida e quotidiano. Uma reflexão sobre a vida e os limites que formamos à nossa volta. É o primeiro livro de um jovem autor que agora começa a dar os seus primeiros passos na esfera da literatura e que terei todo o gosto de ver crescer enquanto escritor, dado que ele já tem outros projectos em vista para breve."
- Diana Barbosa

"Este livro foi uma surpresa principalmente pelo tema que é abordado no mesmo e pelo meio onde é descrita a acção. Não se pode considerar um romance puro, aliás, parece-me tudo menos um romance, é sim a descrição da vida de uma mulher simples, do mundo rural, que em toda a sua vida não foi muito bafejada pela sorte. O autor, apesar das constantes alterações no tempo ao longo da narração, conta-nos a história de Manuela e do seu triste fado de mulher do campo, o seu casamento, os seus filhos, etc. O autor extrapola algumas vezes deste pequeno mundo rural para com o resto da sociedade, e deixa a entender (aos mais sensíveis e perpicazes) algumas analogias de como seriam certas situações na vida de uma outra pessoa com outra vida que não a desta simples camponesa. O livro é organizado em capítulos bastante pequenos de escrita rápida e simples. A leitura é feita de forma bastante intuitiva e a linguagem é de bastante fácil entendimento. Na minha opinião, peca apenas por não esclarecer algumas questões relacionadas com o destino de algumas personagens, mas penso que o objectivo deste livro é passar uma mensagem especifica e não propriamente de contar a história da vida de alguém. Parabéns ao autor por ter escolhido esta realidade tão poucas vezes usadas pelos seus colegas e nela ter conseguido encaixar uma análise de alguns conceitos que passam em vão ao lado da sociedade em geral."
- Bruna Cunha

"De Uma Só sorte nos apresenta a vida de Manuela, uma menina que foi forçada a virar mulher por conta de um casamento extremamente cedo. Uma narrativa simples e dinâmica para apresentar o cotidiano desta jovem mulher, uma rotina rural e acomodada com as situações que a vida lhe deu. A narrativa é feita em em terceira pessoa, mas com o foco e sempre em Manuela, o mais interessante desta narrativa é a proximidade que o leitor sente com a protagonista, já no primeiro capítulo nos identificamos com Manuela, como se pudéssemos observar suas ações e não apenas ler. Os capítulos são curtos, o que torna a leitura bem mais rápida. Há variações do tempo, em alguns momentos retornamos ao passado de Manuela para compreender o que ela havia passado até ali, não temos um tempo exato da narrativa, mas que fique claro que o autor foi feliz na construção dos capítulos, pois mesmo o tempo não sendo regular o leitor não fica perdido. O livro se torna torturante em alguns pontos, temos a vontade de gritar com a Manuela, sua vida realmente é um círculo, mesmo com a sorte não sorrindo para ela, ela continua estacionada em sua vida, não faz nada para mudar. O pior é que vejo isso um reflexo da realidade, pessoas que se acomodam, não por preguiça, mas por achar que não conseguem mais do que isso. É complicado, é a história de uma mulher do campo, mas suas ações refletem muito nas mulheres urbanas da nossa sociedade. Bom, no geral eu gostei muito do livro, embora acho que o autor poderia ter explorado mais o cotidiano de Manuela, mostrar mais do seu ponto de vista dos acontecimentos de sua vida. Infelizmente o livro não está a venda no Brasil, mas caso queira comprar é só acessar o site do autor que lá tem o link para a compra."
- Lis Volpe

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4050-159 Porto
Tel: 222 056 660

Espinho:
Livraria ABCRua 19, 1824500-255 ESPINHO
Tel: 227 340 099

Vila do Conde:
Livraria A'Luísa
Pç. Luis de Camões, 91/107
4480-719 VILA DO CONDE
Tel: 252 646 820

Lisboa:
Livraria Poesia Incompleta
Rua Cecílio de Sousa, 11
1200-098 LISBOA
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Livraria Trama
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Tel: 213 888 257

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Avenida Roma 11-A
1049-047 LISBOA
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GATAfunho Loja de Livros
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Braga:
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Av. Central, 118/120
4710-229 BRAGA
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7000-930 ÉVORA
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Jan. 2011: Jornal Universitário do Porto

Mai. 2011: Portugal Creative

Out.2011: Batalha Literária

Dez. 2011: Revista Livros e Leituras

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Mai. 2012: Análises Literárias

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Nascido a 3 de Junho de 1986, Tiago Gonçalves sempre teve como berço a cidade do Porto. Nasceu e cresceu no Porto, numa rua histórica, que o ajudaria na sua educação humilde e simples, mas sempre de horizontes abertos para outras realidades. O gosto pela literatura vem desde a sua infância, crescendo progressivamente à medida que os anos avançavam.

Licenciando-se no ano de 2008, em Sociologia na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, o seu sentido crítico e analítico é sinónimo de uma constante evolução ao longo de toda a sua vida, até ao ponto de chegada. A instrução académica seria o complemento para a sua própria aprendizagem, curiosidade e constante vontade de conhecer, aprender e pensar.

Em Novembro de 2010, lançou o seu primeiro livro, um conto, intitulado "De Uma Só Sorte". O segundo livro, uma novela intitulada "Não Fomos Nós Dois", foi publicada em 19 de Novembro de 2011.

Pode contactar-me, enviando por aqui a sua mensagem.




14
Mar
2012
15h
Apresentação dos livros na Semana da Leitura
Local: Escola EBS do Pinheiro (Penafiel)
19
Abr
2012
11h
Apresentação do livro Não Fomos Nós Dois no âmbito do programa anual Contornos da Palavra
Local: Viana do Castelo
12
Abr
2012
10h
Apresentação dos livros na Semana da Leitura
Local: Escola EBS de Esmoriz (Ovar)